Não sei que tonalidade verde me chamou pela primeira vez a atenção, mas posso dizer que, do lugar de onde estava, dava para ver um cinturão de árvores copadas, com seus frondosos galhos carregados de folhas, como se a minúscula capela estivesse protegida, no tempo e no espaço, do que existe do outro lado do mundo.As pessoas chegavam devagar, em silêncio, como se viessem para um encontro marcado há muito tempo, para o qual não se exigia palavra alguma. Lágrimas solidárias pareciam desenhar látegos úmidos na face interminável dessa sufocante tarde de dezembro. Alguém que eu não conhecia me cumprimentou, eu acenei com a cabeça e, por um momento, senti que tinha valido a pena estar ali. Todos estavam vestidos com certa dignidade e minuciosamente limpos; isso parecia lhes dar um comprometimento maior com aquele interminável ritual de despedida.
Alguém sussurrou que a vida é dura e que só nos resta a morte; outro lembrou de uma tarde perdida no tempo, na qual havia café fresco e broa de milho sobre a mesa da cozinha ampla de cheiros de pomar; quando era fácil para um parente reconhecer o tio ou o sobrinho que não via há anos e selar este reencontro com abraços e risos honestos.
Entre apertos de mão e abraços tímidos, recordavam-se coisas. Um homem grisalho lamentava ser o único irmão sobrevivente; à senhora de bengala ocorreu o fato da assustadora freqüência com que voltava àquela mesma capela ultimamente; a bela moça de pulseiras e cabelo preso lembrou de sua mãezinha, e uma nuvem de lágrimas manchou rapidamente a dimensão celeste do seu olhar.
De dentro, ouvia-se o choro intermitente da filha devotada que buscava amparo nos braços frágeis e cansados do velho pai. A filha, abraçada assim ao pai, me suscitava uma tristeza imensa e profunda. Ali, naquele quadrado de cimento e massa, a solidão, o desamparo e o sofrimento constituíam um quadro que certamente não sairá da lembrança dos netos, ambos assustados e chorando também, agarrados a pernas adultas e a saias conformadas.
Ali, três gerações conheciam uma dor inqualificável.
Súbito, me dei conta de havia pouquíssimas pessoas que eu conhecia. No entanto, como quando acontecera há alguns instantes, só o fato de estar ali já me alçava à condição de quase-parente. E eu gostava disso. Duas senhoras encanecidas praticamente agradeceram minha vinda, quando pararam e me estenderam a mão para reconfortar ou serem reconfortadas, não importava. Do meu posto, via, ao mesmo tempo, o cinturão verde imenso e a aproximação de mais gente – moços, crianças e velhos, todos numa marcha lenta e determinada. Um grupo de jovens estava onde deveria estar: no jardim; antigas rodas se reuniam depois de anos, e seus integrantes, em determinados momentos, se sentiam culpados de soltar uma gargalhada pura e leve.
Dentro da casa, parecia ainda haver um vago eco das vozes que tinham falado na noite. Do lado de fora, encostado num Del Rey enferrujado, um homem de chapéu falava coisas místicas a um grupo de seres mudos que havia chegado atrasado. A mulher que eu conhecia estava sentada num banco, do lado de fora da capela. A filha lhe acariciava o rosto, numa conjugação terna de apoio e entendimento. O filho desta, neto daquela, queria saber de que cor eram as asas dos anjos, e de que tamanho eles eram. Uma voz de tia explicou que os anjos tinham as asas da mesma cor das flores que cobriam o corpo diminuto da bisavó, lá dentro, entre velas e o nada. O garoto sorriu e foi correr longe, perseguindo uma borboleta que flutuava sem destino no ar quente daquela tarde.
071206
Trata-se de Madalena, a querida de Cristo ? Miranda
ResponderExcluirExcelente crônica !Rubembraguiana.
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