Outro dia, li no Sérgio Rodrigues um comentário sobre o abastardamento da palavra “madrasta”, cuja conotação pesada vinha perdendo a dimensão de pavor e perseguição adquirida no inconsciente coletivo dos contos de fada. Concordo. Com o realinhamento dos novos padrões de relação das famílias, a presença de uma madrasta na vidinha dos miúdos já não provocava a neura de antigamente. Mesmo que disfarçada de “namorada do pai”, a nova integrante tinha as mesmas características, só que agora azeitadas pela doçura e compreensão das mentes abertas e psicanalizadas. Rafael Bluteau, em seu dicionário do início do século 18, registrava os seguintes adágios portugueses: “Madrasta e enteada sempre andam em baralha” (isto é, em conflito, em joguinhos de intrigas); e o genialmente sucinto “Madrasta, o nome lhe basta”. Na década de 60, Roberto Carlos gravou um bela canção que tinha o título de “A Madrasta”, composição de Renato Teixeira e Beto Ruschell, que era uma declaração de amor e de identificação com as dores do mundo: “Aceite o afeto de quem sempre andou tão só na vida...”. Madrasta saiu do latim popular matrasta, de significado idêntico: a nova mulher do pai. Trata-se de uma das derivadas de mater, vinda por sua vez da imemorial raiz indo-européia matr-, ancestral tanto do sânscrito mata quanto do inglês mother. Constata-se que a raiz, com todas as características benevolentes, acabou produzindo também “madrasta”, um produto pejorativo e depreciativo de mater. Daí, o significado oposto do sentido original: aquilo que maltrata: sorte madrasta, por exemplo. Em inglês, o substantivo “stepmother”, formado pelo prefixo “step”, de origem alemã, tem o sentido de órfão – ou seja, confirma a idéia de alguém que supre a ausência física da mãe verdadeira. A madrasta de Isabela Nardoni, pelo menos até agora, voltou a personificar a vilã que conhecemos de Cinderela, com a agravante lingüística da coincidência com o pré-nome composto da mãe biológica, alterado pela mística, e nem sempre bem-vinda, repetição do n, décima terceira letra do alfabeto.
080501
Foi o único que li até agora abordando o caso de Isabela com beleza e erudição. Parabéns Miranda Fortes
ResponderExcluirExistirá alguém, além de nós próprios, que ainda se interessa por etimologia, ainda mais perambulando pelas inúmeras selvas lingüísticas ? Abraços Miranda
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