sexta-feira, 6 de junho de 2008

OBAMA

Quem viu não vai esquecer: Barack Obama no palanque, todo sestroso, com aquele sorriso caetaneado, de bem com a vida, dedicando a noite vitoriosa à vozinha que ainda mora na África, depois de ter alcançado a indicação como candidato do partido democrata à presidência dos EUA. Há toda uma cornucópia de análises sobre a trajetória e o provável sucesso do senador nas eleições de novembro – é abrir os sites políticos e checar o que pensam os adoradores dos números e das trampolinagens que regem o concerto sem conserto que toca a vida palaciana em geral. Obama é um personagem realmente novo no cenário social americano, mesmo que ainda venha com sua aura de salvador messiânico que, em tempo e bem ao gosto ianque, vai dar um basta a tudo que está personificado na pedestre figura medíocre de George W. Bush. É só dar uma olhadinha na entrada dele no programa da Ellen Degeneres para achar alguma coisa fora da ordem americana: (http://br.youtube.com/watch?v=RsWpvkLCvu4). Obama falou muito e falou bem. Olha o Obama , geeeente!!!, gritaria o animador carnavalesco, sem se importar de dar um créu no lugar-comum do hino americano. O discurso, mesmo escrito por um ghost-writer, caiu bem na boca simpaticamente escancarada do candidato democrata e foi redimensionado por seu olhar firme, seus gestos comedidos e o agradável tom de voz que hipnotiza mesmo. O conteúdo também foi uma bola dentro, começando pela alusão à avó e, pasmem, elogiando Hillary e McCain. Quem esperava uma auto-apologia que sublinhasse suas raízes negras ou um discurso centrado no “eu-sozinho” se frustrou positivamente – Obama falou de idéias, de propostas, deslocando o foco que muito justamente o colocava no centro do palco, para muito além dos devaneios egóicos, comuns em apoteoses como essa. A ginga logo apareceu em pausas certeiras e olhares convidativamente baianos que convidavam o ouvinte a ser mais do que isso – chamava-nos para sermos interlocutores, para participar numa contra-dança ao som do debate. A multidão, claque hollywoodiana, ensaiada ou não, ia às alturas. Os analistas de plantão na CNN estavam convencidos de que o momento era mesmo histórico, mas eu achava mais – ecoava nos meus ouvidos tão castigados as vogais abertas do nome Obama! dando um chega pra em richards, bills, georges, johns, geralds and jimmys. Esta primeira batalha ele venceu com elegância: a batalha do discurso, do domínio das palavras, da entonação honesta e da emoção sem disfarces. Falta, agora, o embate com os tanques republicanos. John McCain certamente vai atacar. Esperemos que, dessa vez, os votos sejam contados corretamente e que o senador e sua equipe tenham aprendido com os erros de Kerry e Gore. Os Estados Unidos, a super-potência, são a terra dos superlativos e das superações. Quem sabe se, agora, os super-delegados não elegem, finalmente, um super-homem?

080606

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