domingo, 9 de setembro de 2007

A RESPOSTA



As mulheres andam perguntando coisas cada vez mais difíceis de responder. Isso, certamente, se dá porque elas têm o radar interno mais calibrado, são controladoras do próprio vôo e não dependem de grooving para pousar em pista molhada. Perguntam porque logo percebem o que está rolando, e não raro, a intuição, que já lhes vem de fábrica, vai pondo uma pulga atrás do piercing e não há nada que não deixe um blip registrado na imensa tela de cristal líquido dos olhos. Indagam, pois sabem quando estão prontas para a resposta – e esse é o critério, seguramente intuitivo, que as orienta os passos e olhares – na hora em que se deparam com questões amorosas. Há um gosto de chocolate no que querem saber. Uma bela mulher perguntou: por que o amor, que é tão bom, pode se transformar num sofrimento tão grande? As mulheres sabem que há um momento em que elas podem questionar o amor e que ele não desabará. Às vezes, tiram-se-lhe as mãos e contempla-se-o ereto, em riste, incontornável; outras vezes, largado, o amor titubeia como joão-bobo e então é preciso colocar-lhe calços, descobrir-lhe suas zonas de desequilíbrio, de fragilidade. Por mais sem garantias que seja esse processo, é certo, entretanto, que um sentimento assim se dirija à sua própria completude, a seu acabamento, à sua definição. De nós, gente estranha, só se pode dizer que sejamos o avesso de tudo isso – imperfeitos, incompletos, indefinidos, indeterminados. Essa combinação, em níveis diversos, do precário e do sólido, do inacabado e do acabado, do aberto e do fechado, da luz e das sombras é que faz da pergunta feminina supracitada aquilo que, drummondianamente, poder-se-ia chamar de “claro enigma”. Esse oxímoro é o que seria a diferença profunda, da perspectiva teórica, dos pontos de vistas do homem e da mulher, esta muito mais sábia do que aquele, como sói acontecer na maior parte do tempo. Mas isso são palavras velhas que tonitroam semanalmente. Já sabemos. Elas, mais ainda. Querem distância das cicatrizes antigas que doem de repente, do telefone que não toca, das atitudes passionais que estragam tudo, do e-mail que não chega, do amor que rima com tristeza. Não há como fugir do caráter heterotélico do olhar amorável que se tem sobre as coisas, as pessoas, os gestos, cuja finalidade ou sentido está além ou fora de si. A resposta àquela pergunta tão difícil pode estar ao nosso alcance, pois temos o apetite da esperança que embriaga o revolucionário, temos o dom de entrar em contato com os astros e com os amplos silêncios que cingem os deuses, tal como fazem, sistematicamente, os monges profissionais. Porém, é assim, quase sempre: queima-se de saudade até que não reste mais alguma coisa além de cinzas de tudo aquilo que um dia foi-nos essencial e estranhamente sólido. Aí, se instala o outro problema: como sobreviver até lá?

070909

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