
Champinha disse que fugir foi fácil, e quem sou eu para discutir? Mandou beijos para as lentes do amor dos fotógrafos que o esperavam na chegada da viatura. Por outro lado, Mary Jane já não é a única no coração de Peter Parker, o aranha, que neste terceiro filme já põe as oito manguinhas de fora e, ao rever Gwen Stacy, a namoradinha de infância, deixa claro que o que cair na teia é peixe. Beijo-aranha. Depois do beijo da mulher-aranha, por que não? Não tem problema – um cara que sobe pelas paredes tem que ter suas prerrogativas. Não discuto com super-heróis ou com fugitivos da polícia. Não dou tanta despesa assim. A semana mal começou, mas não posso deixar de registrar que os dias estão mesmo difíceis. Não me sai da cabeça a notícia de que Richard Gere foi capaz de despertar a ira de uma turba religiosa conservadora ao beijar uma atriz indiana, Shilpa Shetty, em um evento de caridade televisionado em Mumbai. Os líderes religiosos islâmicos o acusaram de “indecência”. Os jornais de lá notaram que, segundo a lei Shariah, o contato com uma mulher com a qual alguém não tem parentesco é um crime que pode ser punido com a morte. Gere pediu desculpas às pessoas que ofendeu. Não devia. Está tudo errado. Chegamos a um ponto em que beijar pode ofender, sem que isso gere um mínimo de afeto. Sem que gere simpatia pelo menos para esses trocadilhos nem tão sutis assim, mas que pegam bem, assim como Richard pegou Shilpa e pespegou-lhe beijos comportados mesmo até para os padrões de hoje em dia – aí está o Youtube para não me deixar mentir – aliás, o Youtube não deixa mais ninguém mentir. Claro que há as diferenças culturais, mas querer punir alguém por beijar é um pouco demais, não. Mais compreensível seria o castigo por não beijar. “Queiram perdoar, meus jovens, mas estou observando que há mais de uma hora vocês dois conversam neste banco de praça sem trocar um mínimo beijo. Vou ter que, infelizmente, multá-los conforme o código penal vigente...”, diria um guarda municipal a dois namorados assustados e, certamente, envergonhados, por ficarem tanto tempo sem oscular. Mas, vem cá, se Richard Gere, que já beijou a Julia Roberts, não pode beijar a atriz de Bollywood, quem mais poderia? Abre-se, assim, perigoso precedente, pois se a kiss is just a kiss, como na letra de As Time Goes By, por que esse fuzuê em torno do fato? Será que Erasmo cantaria de novo “Terror dos Namorados”, aquele que tem aquele beijo tão falado? E o seu mccartney Roberto ecoaria o famoso splish aplash nela dentro do cinema, ainda assim? E o Elvis, em Kiss me Quick? Pois é, o beijo é uma linguagem com sintaxe própria, significante e significado, sinalizando barthesianamente um desejo que é quase um modo de estar no mundo, quase uma cosmogonia. Será que o beijo de Gere foi o que os estudiosos chamam de “choque de culturas”, quase inevitável num mundo globalizado? Cáspite! Um beijo é um beijo, apenas isso, e está aí a Dercy Gonçalves para confirmar, quase centenária, beijando quem lhe aparecer pela frente ou por trás. Richard, não esmoreça! Você fez o qualquer rapaz sensato faria e colocou na grande rede o fato de o beijo ser capaz mesmo de abalar as estruturas, de ser notícia, de causar medo, mesmo que gere protestos de quem não sabe beijar ou apreciar a tibieza lingüística de repetir o calemburgo. Melhor assim. O cara chegou, beijou e o mundo mulçumano agitou-se dentro das burcas. Melhor do que o homem-bomba é o homem-beijo, pois este só arrebenta as paredes do fanatismo moralista. O homem-beijo, esse herói moderno, é o terrorista do afeto, explode corações como um Gonzaguinha inspirado. Entende-se o medo, mas não a condenação. Não pode haver qualquer preclusão em relação ao beijo de Gere em Shilpa. Beijo vende notícia, realizou, meu chapa? Adrien Brody beijou a Hale Berry quando ganhou o Oscar. Fez bem. Leonardo Moura beijou a bola antes do derradeiro e definitivo pênalti que deu o campeonato ao Flamengo. Fez bem. João Paulo II beijou o chão. Fez bem. Beijar faz parte do mundo, desde que foi registrado o primeiro ósculo nos textos védicos em sânscrito – e na Índia!!! – por volta de 1500 a.C., onde certas passagens citam o contato entre bocas dos amantes. Há até uma ciência que se dedica a estudar o beijo, a Filematologia. Beijar emagrece e faz crescer a auto-estima, mesmo que esta seja uma demonstração exacerbada de paixão pelo próprio carro. Não viola o “espaço cultural” de ninguém. Champinha voltou para a cadeia e ao despedir-se da quase liberdade deu um beijinho para a câmera. Está certíssimo. O beijo de Richard na atriz indiana reverberou mais na web virtual do que o do Homem-Aranha na mulher idem e fez as mulheres de todo o mundo molharem previamente os lábios antes de darem uma esticadinha ao shopping para comprar mais um par de sandálias pretas e saltos finos.
07/05/07
Sou um terrorista do afeto, é preciso admitir! Admiro os homens que têm a sensualidade em segundo plano, desfrutam maior vigor racional. Mas, definitivamente, este não é o meu caso. Eu adoro beijar! Com ou sem burca [embora a burca, meu caro Fernando, gere uma tensão criativa de fazer salivar mesmo os mais ressequidos iatolás]. Viva o homem-beijo! E que o mundo se acabe em bocas! Abraços!
ResponderExcluir